Comunicação não-verbal

Comunicação não-verbal. A influência da indumentária e da gesticulação na credibilidade do comunicador

Maria de Fátima Ribeiro [1] e Galvão dos Santos Meirinhos [2]

 

Abstract – This article has as its subject the non-verbal communication. The main objective is to check the credibility of the communicator with the receptor is influenced by the costumes and gestures. In this sense, we have developed a 2×2 factorial design of independent groups, where four independent groups to submit four different treatments in order to ascertain to what extent the independent variables influenced the dependent (credibility). After applying the statistical tools, we conclude that: a gesture accompanied by a slow casual attire creates a neutral effect on the credibility of the communicator, the sudden gestures coupled with an informal dress gives a negative effect, in turn, accompanied by a slow gesture a formal dress has a positive effect in terms of credibility, and finally the abrupt gestures coupled with a formal dress generates a neutral effect.

Keywords: Non-verbal communication, Clothes, Gestures, credibility of the communicator.

INTRODUÇÃO E REVISÃO DA LITERATURA

A comunicação não-verbal tem exercido fascínio sobre a Humanidade desde os seus primórdios, uma vez que envolve todas as manifestações corporais que não são expressas por palavras como a gesticulação, as expressões faciais, as posturas, as distâncias entre as pessoas, o odor, o tacto, os elementos paralinguísticos da voz, a indumentária, etc.. Para além de exercer uma função comunicativa, enriquecendo a linguagem verbal, também transmite informações acerca da personalidade, gostos, emoções  e atitudes do indivíduo.As palavras podem ser  bonitas e excitantes, no entanto, não representam a mensagem total. Na verdade, segundo a opinião de um cientista “a palavra é aquilo que o homem usa quando tudo o resto falha” [12]. De entre todos os instrumentos de comunicação não-verbal, este estudo tem como objectivo estudar apenas dois: a indumentária e a gesticulação. Segundo Knapp e Hall, a indumentária é qualquer coisa que se traja e que pode ser literalmente lida [19]. Na nossa perspectiva convém não confundir a indumentária com o vestuário, apesar de ambos os conceitos se interrelacionarem, não possuem o mesmo significado, dado que a indumentária é um conceito mais abrangente que incorpora o próprio vestuário. A indumentária é um meio de comunicação que comunica o indivíduo à sociedade e que traduz a sua maneira de viver, no plano social e individual.

A gestualidade, para além de exercer um papel significativo na estruturação do discurso oral, também actua como um elemento constituinte da interacção, podendo designar de modo simbólico a posição de cada um no sistema social – prestígio, status, ordem, privilégio, consideração, entre outros [14]. Assim sendo, tanto a indumentária como a gesticulação determinam, em grande medida, o grau de aprovação e aceitação do comunicador por parte do interlocutor, actuando, assim, como dois componentes essenciais para a conquista e reconhecimento da tão ambicionada credibilidade.

Indumentária

Desde há milhares de anos que a primeira linguagem usada pelos seres humanos se comunicarem tem sido a indumentária [22]. Para além de exercer uma função especificamente protectora, a indumentária carrega signos, significados e gera uma comunicação. Muitas das vezes, as pessoas fazem leituras umas das outras mediante aquilo que elas vestem, sem sequer pronunciarem qualquer palavra. Como explica Camargo “no acto da observação, não são colocadas palavras, mas informações se registam no inconsciente, criando assim um diálogo imagético” [8]. O vestuário das pessoas envia mensagens umas às outras durante a interacção social. Dá indicações acerca do sexo, idade, actividade, situando até mesmo o indivíduo no tempo e no espaço. É o que enfatiza Umberto Eco ao dizer que “existe sempre no interior de cada grupo uma vestimenta mínima histórica e culturalmente determinada sem a qual a existência social, e mesmo biológica, do indivíduo se aniquilaria” [30]. Por outro lado, a indumentária revela a subjectividade do ser humano, nomeadamente os seus gostos, preferências, hábitos, humor, fantasias, desejos, bem como o seu grau de religiosidade, independência e originalidade. Podemos mesmo dizer que, a roupa é a verbalização subjectiva dos nossos pensamentos e atitudes. Como salienta Larissa Camargo no texto O potencial comunicativo da moda, “a indumentária são significantes sociais e comunicacionais, através dela consumimos hábitos, valores e expressamos ideias, atitudes que, às vezes, palavras não conseguem descrever” [9]. O próprio vestuário também define os grupos profissionais como soldados, religiosos, académicos, advogados, agricultores, operários, etc. Cada um possui o seu próprio vestuário distintivo, o seu “uniforme” para marcar a sua identidade através do trabalho que executa [17]. Há pessoas que procuram, inclusive, ganhar poder sobre os outros pelo vestuário que usam, uma vez que ele actua como um recordatório constante da posição social de cada indivíduo. É por esta razão que o consumidor, ao entrar numa loja de roupas, não procura apenas proteger o seu corpo, busca a diferenciação que essa roupa lhe poderá dar ou a mensagem que poderá, eventualmente transmitir vestindo-a. Assim sendo, a indumentária constrói identidades visuais e imagens do indivíduo. Através de acções quotidianas como o modo de vestir, de maquilhar, o homem procura criar e vender uma imagem de si mesmo, cria uma forma de se ver e de se dar a ver aos outros. Neste sentido, a indumentária pode ser entendida como um veículo ideológico, através do qual se estabelece uma identidade individual, mas também como instrumento de integração e individualização [16]. Contudo, esta busca pela autenticidade desejada – de fazer coincidir o que se quer ser com o que se é – tem conduzido a uma sociedade intensamente narcisista e individualista onde a roupa “permite a camuflagem de desigualdades sociais através de uma aproximação estética dos indivíduos” [29]. No fundo, o homem moderno brinca com o vestuário com o intuito de iludir a imagem que o outro poderá ter de nós. Como diz Michel Bihen, actualmente “faz-se batota”, joga-se, no que diz respeito ao vestir [42].

No entanto, e tendo em conta que a aparência é o primeiro estágio da interacção podemos facilmente depreender que a indumentária do indivíduo vai determinar a primeira impressão e avaliação que fazemos do outro. Na realidade, o vestuário gera influência. Estudos realizados por Forteberry, Maclean, Morris e O’Connell demonstraram que as pessoas que se vestem com elevado grau de formalidade e que, por sua vez, demonstram um status mais alto, são mais persuasivas do que aquelas que optam por uma indumentária informal. [1]. O facto de as pessoas estarem bem vestidas é um diferencial, confere-lhes poder e sofisticação. O desleixe na indumentária pode interferir, e até mesmo, prejudicar o profissional. Deste modo, é essencial que as pessoas tenham consciência de que o vestuário que usam é um texto e que este terá significados para o interlocutor.

 

Gesticulação

A gesticulação tem atraído a atenção de inúmeros estudiosos ao longo dos séculos. Segundo McNeil, os gestos são movimentos corporais, visíveis e voluntários, realizados pelo ser humano, através dos quais transmitem um determinado significado [26]. Noutros termos podemos dizer que os gestos são movimentos que, de forma consciente ou inconsciente, o falante realiza com uma ou mais partes do corpo, nomeadamente com a cabeça, o rosto (incluindo o olhar), ou as extremidades, tanto superiores como inferiores. De realçar os gestos das mãos que, no âmbito gestual, desempenham funções claramente ostensivas. Mancera divide os gestos em dois grandes grupos: 1) gestos faciais –  aqueles que se realizam com os olhos, as sobrancelhas, o queixo, o nariz, os lábios e a boca; 2) gestos corporais – aqueles que se realizam principalmente com a cabeça, os braços, as pernas, os pés, as mãos e os dedos [33].

Os gestos são uma forma de linguagem que na comunicação podem desempenhar diversas funções, chegando, por vezes, a serem mais eficazes do que qualquer palavra que possamos eventualmente usar. Eles podem ser usados para ilustrar ou reforçar a mensagem verbal, esclarecendo o seu significado. A título de exemplo temos o recurso a gestos direccionais no sentido de complementar a expressão direccional verbal. Segundo Adam Kendon, os gestos participam na construção de sentido do enunciado. Muitas das vezes as palavras faladas são ambíguas e aquilo que o falante quer dizer com as palavras ou frases visadas só se torna claro quando elas são definidas num contexto mais amplo. Neste sentido, os gestos podem fornecer o contexto para a expressão oral através de uma representação visual, fazendo com que o enunciado oral seja mais preciso [18]. Por outro lado, os gestos podem ser usados como marcadores da atitude do falante em relação ao que se está a dizer, nomeadamente, para expressar as suas atitudes acerca de como se espera que aquilo que se está a dizer seja interpretado pelo interlocutor. Deste modo, os gestos acabam por expressar a natureza da intenção ilocucionária do enunciado, adicionando significado à mensagem falada [18]. Assim sendo, podemos verificar que o gesto exerce funções comunicativas, visando acima de tudo tornar a expressão falada o mais clara e unívoca possível. “É o caso dos gestos que sublinham a palavra, a pontuam e lhe dão um relevo relativo como faz o dedo indicador apontando para aquele que eu acuso” [5].

Alguns especialistas (Laguna 1927; Friedman 1972; Mead 1934¸ Moscovici 1967; Werner; Kaplan 1963) alegam ainda que, os gestos não só transmitem mensagens e complementam a mensagem verbal como também possuem uma função de recuperação lexical [11]. Dito de outra forma, os gestos ajudam a pensar, ajudam as pessoas a procurar na memória aquelas palavras que não ocorrem com tanta facilidade aos lábios.

Por último, os gestos não são apenas fruto dos nossos sentimentos ou um instrumento de feedback face aos comportamentos não-verbais nos nossos interlocutores, eles espelham as nossas emoções e pensamentos. Para Napier “o gesto permite que se expressem coisas que nunca poderão ser faladas. Se a linguagem foi concedida aos homens para esconderem os seus pensamentos, então a finalidade dos gestos foi revelá-los” [34]. Um exemplo que demonstra este facto são as pessoas abatidas que, normalmente, andam com as mãos nos bolsos, com a cabeça para baixo e com os ombros curvados. Para além de transmitirem os nossos sentimentos, eles podem também ser causadores de sentimentos e emoções. Allan e Barbara Pease explicam que, quando as pessoas sorriem ou riem, mesmo não estando felizes, “acabam por animar a “zona feliz do hemisfério esquerdo com actividade eléctrica”, ficando mais felizes [3].

De referir ainda que, os gestos podem exercer a função de redutores de tensão. Joe Navarro, Ex-agente do FBI e especialista na linguagem corporal, intitula estes gestos de comportamentos pacificadores, uma vez que são usados na tentativa de eliminar uma sensação desagradável ou nociva. Estes comportamentos assumem muitas formas e como explica Navarro “quando estamos stressados, podemos afagar o pescoço com uma massagem suave, passar as mãos na cara ou brincar com o cabelo” [32]. Assim, estes gestos têm como especial objectivo reduzir estados de tensão, stresse, nervosismo. Por outras palavras, procuram tranquilizar-nos.

Segundo McNeil, os gestos possuem determinadas propriedades, que importa salientar:

  • É global. O gesto não deve ser interpretado isoladamente dos restantes. Cada gesto isolado é como uma palavra numa frase, difícil e perigoso de se interpretar [2].
  • É sintético. Um simples encolher de ombros pode ser mais falante do que uma torrente de palavras. Como explica Sanvito, “em virtude de o homem não conseguir verbalizar todos os seus pensamentos e emoções ele complementa sua mensagem através de uma elaborada linguagem corporal” [24].
  • Não se combina. Os gestos não se combinam para criar estruturas e formas largas e hierárquicas, pois carecem de uma sintaxe. A maioria deles são de uma cláusula oracional mas, quando há gestos sucessivos sem uma cláusula, cada um corresponde a uma ideia unida em e para si mesma [26].
  • É sensível ao contexto. Cada gesto é criado no momento da fala e salienta ou destaca o que é relevante naquilo que é dito, no entanto, a mesma ideia pode ser referida por um gesto que pode mudar o seu significado. O gesto de coçar a cabeça, ele pode significar muitas coisas diferentes tais como suor, incerteza, caspa, piolhos, esquecimento ou mentira, isto dependendo do contexto em que ele ocorre. Ou seja, o gesto é dependente do contexto, tal como o signo linguístico.
  • É rítmico. Os gestos estão integrados no aparato linguístico. No entanto antecipam o enunciado na sua fase preparatória e sincronizam-se na fase do “golpe”, no momento em que é pronunciada a sílaba tónica da palavra e nunca depois dela [26]. Neste sentido, o gesto deve preceder à palavra ou acompanhá-la, nunca sucedê-la. Como explica Mário dos Santos “se anteceder, prepara o efeito da palavra; se acompanhar, reforça-a; se a suceder, perde a sua força” [39].

Uma outra propriedade que não foi considerada por McNeil mas que pode ser muito relevante é a variação cultural, pois o gesto também é sensível à cultura. Por exemplo, como sabemos o dedo indicador é usado vulgarmente para apontar para uma determinada direcção, contudo, noutras culturas o gesto de apontar o dedo pode ser considerado inapropriado e invulgar [7].

Credibilidade do comunicador

A credibilidade do comunicador é considerada um factor determinante da maior ou menor eficácia comunicativa. Na sua ausência, um emissor dificilmente conseguirá obter a atenção que deseja por parte dos seus interlocutores. Definir credibilidade não é uma tarefa fácil e nem sempre nos podemos referir à credibilidade como um constructo único e directo. Como explica Perloff, “ (…) trata-se de um constructo psicológico ou interpessoal ao nível da comunicação, que parte tanto das características do comunicador como das percepções da audiência sobre este” [37].

De acordo com Armand Balsebre, a credibilidade é definida como a confiança que um deposita no outro, a partir da qual se procede a um acto de fé: crê-se naquilo que o emissor diz, na sua palavra [21]. Schtrumpf, numa recente enciclopédia de retórica, segue na mesma direcção e refere que a credibilidade é a “impressão de fiabilidade que um orador, ou os argumentos que ele ou ela usa, deixa no auditório” [40].

Independentemente das visões de cada autor, na generalidade todos eles definem a credibilidade de uma forma idêntica. O termo confiança, ora implícita ora explicitamente, é a palavra-chave das suas afirmações. Ela é muito importante para a credibilidade, não só para consegui-la, mas também para mantê-la. Segundo Simmel G. (1990) e, em certa medida, Luhmann, N. (1979) “la confianza funciona principalmente como un atajo, como una heurística mental en el sentido de la racionalidad limitada, que le permite al individuo hacer frente a la incertidumbre suspendiendo su incredulidad y realizando un “acto de fe” en el outro” [38]. Neste sentido, podemos depreender que a credibilidade é considerada como o maior ou menor crédito e confiabilidade que o comunicador projecta para os seus interlocutores. A credibilidade é, assim, um processo que se constrói progressivamente, não sendo possível a sua criação. É algo que comunicador tem que conquistar, nunca é um dado estabelecido à priori. Deste modo, e tendo em linha de conta que a credibilidade é um constructo, antes de se instalar definitivamente, ela interage com outros factores que compartilham a sua construção. Segundo Morera, são as manifestações não-verbais – tipo de vestuário, movimentos do corpo, olhares, odores, tipologias da cara e do corpo – que geram a credibilidade necessária como emissor de uma mensagem. Elas actuam como uma pré-comunicação que vai predispor ou não a crer naquilo que se está a escutar [28]. Na mesma linha de pensamento, Petty e Caccioppo (1984) explicam que quando os efeitos pessoais e os efeitos da mensagem são moderados ou pouco sedutores, as pessoas não estão certas se vale ou não a pena pensar naquilo que estão a ouvir. “Nestas circunstâncias, as características da fonte da mensagem podem ajudar uma pessoa a decidir se vale ou não a pena considerar a mensagem” [41]. Yerena possui uma visão idêntica à dos autores citados anteriormente e, a título de exemplo, salienta que características como a aparência física e a personalidade são determinantes no processo de construção de credibilidade do comunicador. De facto, o atractivo físico da fonte pode incrementar a credibilidade do comunicador. Para além de condicionar a atenção, percepção e retenção do receptor pode também incentivar mecanismos de identificação com ela, o que por si só melhora a credibilidade do emissor, e em consequência a sua eficácia persuasiva. Foi demonstrado que as pessoas associam o atractivo físico da fonte a outras características positivas como, por exemplo, honestidade, sinceridade ou credibilidade [25]. O próprio tom de voz também é muito relevante na percepção de credibilidade por parte do receptor. Na visão de Myers e Lamarche (1992) uma fonte que fala rápido, com uma intensidade e tom alto é mais credível. Um tom de voz elevado demonstra a experiência do comunicador, a sua autenticidade, a sua sinceridade e conforto [35]. Já Prescott salienta a importância da ausência de tensões. Na sua percepção, as fontes que perdem a calma, ou estão demasiado nervosas, tendem a ser menos credíveis [35]. A empatia também é responsável pelo processo de construção da credibilidade do comunicador, tendo em linha de conta que o público está mais inclinado a ouvir uma pessoa gentil e amigável [35]. Os estudos de Chaiken (1980) e Petty et al (1981) constataram que o público gasta muito pouco tempo a pensar sobre os argumentos, sendo, simplesmente, mais influenciado pela sua simpatia para com a fonte [35]. Ou seja, as fontes que são percepcionadas como simpáticas e amigáveis tornam-se mais credíveis. Segundo Morera, o carácter, a disponibilidade, o uso de signos que o receptor entenda, bem como a sinceridade também são determinantes na construção da credibilidade [28]. Como podemos constatar, são inúmeras as manifestações não-verbais responsáveis pela construção da credibilidade do comunicador. Existem certos comportamentos não-verbais que podem gerar uma atribuição de competência, confiança, dinamismo, seriedade, enquanto que outros podem gerar efeitos negativos e, em consequência, afectar de alguma maneira a credibilidade do comunicador. A título de exemplo temos as manifestações não-verbais que estão sistematicamente associadas à comunicação enganosa, portanto, à mentira. De acordo com Ekman (1989), as expressões faciais, os movimentos do corpo, as pausas, a evitação do olhar, os tropeços, os maneirismos e a conduta verbal (acelerar os movimentos das mãos enquanto se eleva o tom de voz) podem ser alguns indicadores precisos para detectar pessoas que mentem [20].

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

A comunicação não-verbal tem sido um tema frequente desde sempre, mas não necessariamente para os cientistas. Somente a partir do século XX é que esta temática despertou o interesse da comunidade científica e psicólogos, antropólogos, linguistas, comunicólogos, começando então a pesquisar relativamente a tudo no que diz respeito ao conhecimento da expressividade corporal [23].

De entre os inúmeros canais de comunicação não-verbal, a indumentária e a gesticulação são dois deles extremamente expressivos, no entanto, apesar dos estudos realizados neste domínio, ainda há muito por desvendar. Neste estudo, tentamos verificar se a indumentária e a gesticulação influenciam a credibilidade do comunicador. Ou seja, se os estímulos – indumentária e gesticulação – conferem, ou não, credibilidade ao comunicador na percepção dos interlocutores. As quatro hipóteses que pretendemos verificar mediante uma metodologia experimental são:

  • H1) A gestualidade lenta acompanhada de uma indumentária informal tem um efeito neutro na credibilidade do comunicador;
  • H2) A gestualidade brusca acompanhada de uma indumentária informal tem um efeito negativo na credibilidade do comunicador;
  • H3) A gestualidade lenta acompanhada de uma indumentária formal tem um efeito positivo na credibilidade do comunicador;
  • H4) A gestualidade brusca acompanhada de uma indumentária formal tem um efeito neutro na credibilidade do comunicador.

No sentido de contrastar as hipóteses de investigação, desenvolvemos um desenho factorial 2×2[3] grupos independentes[4] com aleatorização completa[5]. O experimento manipula duas variáveis independentes (a indumentária e a gesticulação) com dois níveis de tratamento cada uma. No âmbito do factor indumentária, consideramos os estímulos formalidade e informalidade; relativamente à gesticulação a natureza do estímulo varia entre lento e brusco. Assim, para cada variável independente manipulamos dois níveis experimentais, dando origem a quatro tratamentos experimentais diferentes (duas variáveis independes x dois níveis de variação).

Para estudar a relação entre variáveis dependentes e independentes não é necessária uma amostra representativa do universo mas sim garantir a homogeneidade dos indivíduos. Neste sentido, e de forma a garantir tal homogeneidade, consideramos variáveis de controlo relativamente ao sujeito (sexo, idade, instrução académica, estado das condições visuais e auditivas bem como a familiaridade com situações de apresentação pública) ao contexto (o mesmo ambiente em todas as situações experimentais) e ao procedimento (aleatorização completa). Este conjunto de variáveis de controlo, para além de assegurar a equivalência entre os grupos experimentais, também ajuda a controlar as variáveis estranhas[6] que são desconhecidas pelo investigador.

Foram assim constituídos quatro grupos experimentais independentes formados por 10 sujeitos cada um, em que cada grupo experimental recebe um único tratamento e em que cada sujeito participante realiza a experiência apenas uma única vez. Os tratamentos experimentais considerados e aleatorizados são:

  • 10 sujeitos foram submetidos a uma gestualidade lenta acompanhada de uma indumentária informal (Grupo1);
  • 10 sujeitos foram submetidos a uma gestualidade brusca acompanhada de uma indumentária informal (Grupo 2);
  • 10 sujeitos foram submetidos a uma gestualidade lenta acompanhada de uma indumentária formal (Grupo 3);
  • 10 sujeitos foram submetidos a uma gestualidade brusca acompanhada de uma indumentária formal (Grupo 4).

A amostra do estudo foi formada por alunos do Curso de Ciências da Comunicação da Universidade de Trás-Os-Montes e Alto Douro. O principal motivo da sua selecção foi a familiaridade com situações de apresentação em público, um aspecto importante a ter em conta, uma vez que o experimento é realizado num cenário idêntico. Neste sentido, foi seleccionado um professor de teatro onde, na apresentação de um discurso, representou, de forma o mais rigorosa possível, estes tratamentos.

Após a prova experimental, os alunos foram submetidos a um teste de verificação da credibilidade formada pela autonomia das variáveis independentes. Aqui, os sujeitos participantes foram apenas informados que iriam participar num estudo, desconhecendo por completo o seu objectivo ‐ aprendizagem acidental[7]. Este teste foi efectuado mediante um instrumento de recolha de dados de perguntas fechadas com escalas do tipo diferencial semântico. Este instrumento é formado por quatro questões, cujas respostas permitem a verificação das hipóteses de trabalho. As questões assentam na utilização de escalas bipolares, onde foi solicitado aos participantes que, do conjunto de adjectivos opostos, assinalassem um grau (entre 3 e -3) correspondente a um diferencial semântico de sete possibilidades de resposta, em que os valores 1, 2 e 3 representam atitudes favoráveis, 0 é o ponto neutro e as pontuações -1, -2, -3 indicam atitudes desfavoráveis. As questões iniciais são de carácter demográfico e visam saber o género, idade, o curso que os alunos frequentam na UTAD, bem como o ano que frequentam; As restantes são do tipo diferencial semântico.

A questão um é constituída por 10 pares de adjectivos opostos e visa aferir as atitudes dos sujeitos em relação à indumentária. A questão dois é constituída por 14 pares de adjectivos bipolares e tem como objectivo aferir as atitudes dos participantes em relação à gesticulação. Por sua vez, as questões três e quatro têm como objectivo aferir as atitudes dos participantes relativamente à imagem transmitida tanto pela indumentária (questão três, constituída por 13 pares de adjectivos), como pela gesticulação (questão quatro, constituída por 12 pares de adjectivos).

Através de uma análise individual e conjunta das variáveis, poderemos verificar em que medida estas influenciam e determinam a credibilidade do comunicador. O somatório das pontuações do sujeito experimental permite-nos averiguar o valor individual das suas apreciações entrando em linha de conta com os níveis apriorísticos da combinatória das variáveis independentes a que foi submetido em contexto experimental. Por sua vez, a banda de variação das pontuações colectivas permite conformar um valor holístico por grupo experimental, que nos vai permitir distinguir o valor da combinatória dos níveis das variáveis independentes (às quais foram submetidas os diferentes grupos experimentais).

RESULTADOS

Uma vez recolhidos, os dados foram submetidos a tratamentos estatísticos com o intuito de dar respostas às questões de investigação. Neste sentido, utilizamos a estatística descritiva, nomeadamente a distribuição de frequências (absolutas e relativas) bem como medidas de tendência central (média).

Grupos independentes

No Grupo 1, os valores médios de atitudes mais elevados em relação á indumentária registaram-se nos pares de adjectivos Rígida versus Flexível e Perfeccionista versus Improvisada, com médias totais de -2,3 e -2,1 respectivamente. Isto significa que a maioria dos sujeitos experimentais considera que a indumentária informal é, consideravelmente, improvisada e flexível. A seguir, aparecem os pares de adjectivos Profissional versus Amadora e Expressiva versus Irrelevante, com médias de -1,8 e -1,6. De constatar ainda que, de entre os 10 pares de adjectivos, nove deles obtiveram uma pontuação negativa, com excepção do par Moderna versus Tradicional, com uma pontuação média de 0.5

A gesticulação no Grupo 1 foi classificada por Discreta, com uma média total de 2,3; Moderada, com uma média de 2,2; e Compreensível e Segura, com médias de 2. Na globalidade as atitudes dos sujeitos em relação à gesticulação foram positivas, registando-se apenas quatro pares de adjectivos com uma média total neutra, nomeadamente os pares: Condescendente versus Intransigente; Informativa versus Objectiva; Explicativa versus Genérica e Enfática versus Não-enfática. Não obstante, a pontuação neutra nestes mesmos pares de adjectivos pode ser relevante, podendo indicar que, embora a gestualidade tenha sido lenta, ela não foi suficientemente enriquecedora e expressiva. Dito de outra forma, a combinatória dos níveis de variação das variáveis (indumentária informal acompanhada de gesticulação lenta) não gerou uma influência significativa. A imagem transmitida pela indumentária neste grupo foi visivelmente negativa, embora existam evidências ao nível da Descontracção (obteve uma média total de -2,4) e da Jovialidade (apresentou uma média de -2,3). Numa 3ª posição temos a Flexibilidade, que evidenciou uma média de 2. Como podemos constatar, a indumentária informal é uma realidade flexível e versátil. Ao contrário da indumentária, a gesticulação transmitiu uma imagem muito favorável na percepção dos sujeitos. Repare-se que, à excepção do par de adjectivos Autoridade/Submissão, todos os outros obtiverem uma pontuação média acima de um. Os atributos mais apreciados foram a Credibilidade e a Sinceridade (ambos com uma média de 2) seguidos do Profissionalismo, da Empatia e da Sabedoria. Os dados apurados permitem assim constatar que a gesticulação lenta é um forte indicador da credibilidade do comunicador.

De uma forma geral, como podemos observar na representação gráfica, a gesticulação lenta e a Imagem transmitida pela mesma proporcionaram atitudes positivas aos sujeitos, o oposto do que se verificou nos diferenciais semânticos relativos à indumentária informal.

Gráfico 1: Atitudes no Grupo 1

À semelhança do grupo independente anterior, verificou-se nos sujeitos experimentais do Grupo 2 que a indumentária gerou uma atitude desfavorável, uma vez que todos os pares de adjectivos estão abaixo de zero. Tal como no Grupo 1, a indumentária foi, essencialmente, considerada como muito Flexível (com uma média total de -2.5), Improvisada (com uma média total de -2.2 e Amadora (com uma média total de -2). Para além destes adjectivos registarem a média de atitudes mais elevada, verificamos que ambos os grupos também ocupam as mesmas posições. Os pares de adjectivos menos pontuados foram os pares Atractiva versus Repelente e Ousada versus Discreta com uma média total de -0,6. As atitudes em relação à Imagem transmitida pela indumentária foram todas negativas e com pontuações superiores ao Grupo 1. Os valores extremos situam-se nos pares de adjectivos Seriedade versus Descontracção com uma média total de -2.7 e Maturidade versus Jovialidade com média total de -2.6, tal como se verificou no grupo anterior, embora neste ocupassem posições opostas. Seguiram-se atributos como a Diversão e a Irreverência com médias de -2.3 e -2 respectivamente. O valor mínimo foi registado no par de adjectivos Força versus Delicadeza, com uma pontuação neutra de -0.6. De realçar também que, o atributo Não credível apresenta uma média negativa em ambos os grupos. A indumentária informal é uma manifestação não-verbal que condiciona negativamente a percepção de credibilidade por parte dos sujeitos, dado que passamos de -1 para -1.4.

No Grupo 2, a gesticulação foi globalmente classificada pelos sujeitos como Exagerada (média total de -2.5), Imperativa (média total de -2.4) e Objectiva (média total de -2.2). Note-se que, no grupo anterior uma das características mais apreciadas foi a moderação da gesticulação, enquanto que neste grupo esse atributo assumiu uma conotação muito negativa. A mudança de estímulo, de lento para brusco, influenciou todos os restantes itens, tendo estes sido todos pontuados abaixo de zero. A Ênfase e a Compreensibilidade foram os menos pontuados, com médias negativas de -0.1 e -0.2 respectivamente, o que significa que a gestualidade rápida e instantânea peca pela falta de expressividade e clareza (com uma média total de -0.7). A negatividade das atitudes também se verificou na Imagem transmitida pela indumentária, o que era de prever tendo em conta os dados discutidos anteriormente. Os atributos mais apreciados foram a Agressividade (média total de -2.3) e a Hipocrisia (média total de -2.1). A falta de sinceridade aqui evidenciada é reforçada pela carência de credibilidade, que obteve um dos valores mais elevados com uma média total de -1.8. Neste sentido, podemos afirmar que a gesticulação brusca transmite uma impressão de desonestidade e falta de confiança. São de realçar também os pares de adjectivos Preparo versus Despreparo e Proximidade versus Distanciamento, ambos com médias totais de -2, seguidos da Empatia e Imaturidade, com médias de 1.9, o que nos permite afirmar que a gesticulação efectuada com movimentos bruscos estimula factores como a antipatia, indelicadeza, falta de profissionalismo e competência, pontuada com uma média total de -1.7.

O Grupo 2 foi de entre todos os grupos aquele que obteve uma atitude mais desfavorável, com todos os diferenciais semânticos pontuados abaixo de zero. A indumentária informal acompanhada de uma gesticulação brusca proporcionou um efeito negativo nos sujeitos (Gráfico 2).

Gráfico 2: Atitudes no Grupo 2

Os valores médios de atitudes mais elevadas no Grupo 3 relativamente à indumentária posicionaram-se nos pares de adjectivos Elegante versus Ordinária com uma média de 2.5 bem como o par Profissional versus Amadora com uma média de 2.2. De seguida, deparamo-nos com médias totais elevadas nos atributos Rígida (MT: 2.1), Perfeccionista e Idónea (MT: 2). Estes dados permitem-nos constatar que a indumentária formal é uma fonte de seriedade, sofisticação e poder, algo que não se constatou na indumentária informal, sendo geralmente descrita como Amadora, Irrelevante e Flexível. De entre a totalidade de pares de adjectivos, apenas o par Ousada versus Discreta obteve uma pontuação negativa com o valor de -0.4. No entanto, note-se que o adjectivo pontuado negativamente tem uma conotação positiva perante o carácter formal da indumentária.

Na opinião dos sujeitos experimentais, a gesticulação no Grupo 3 foi largamente descrita como Segura, Clara e Racional (com médias totais de 2.1 e de 2 respectivamente). De seguida, destacaram-se os atributos como a gestualidade Moderada (MT: 1.9), Informativa, Compreensível e Enfática (com médias totais de 1.8), sendo o oposto daquilo que se verificou no grupo anterior. De realçar ainda que, todos os pares de adjectivos foram pontuados positivamente e acima do valor 1, o que nos permite afirmar que, de facto, a gesticulação lenta teve uma atitude bastante favorável por parte dos indivíduos submetidos ao estímulo.

O diferencial semântico relativo à Imagem transmitida pela indumentária também indicou atitudes bastante favoráveis, vindo apenas reforçar os dados apurados na avaliação individual da indumentária. É de destacar o valor extremo para a Credibilidade (MT: 2.6) seguido de uma imagem Cuidada, Profissional e de Madura com médias de 2.5 e 2.3 respectivamente. Assim, os dados apurados permitem-nos reconhecer que a indumentária formal é um grande indicador de Seriedade, Respeitabilidade, Profissionalismo, e consequentemente de credibilidade.

No que respeita à Imagem comunicada pela gesticulação, também esta obteve valores positivos muito elevados, ao contrário do que se verificou nos grupos anteriores. À semelhança dos conjuntos anteriores, os pares de adjectivos mais apreciados foram, a Credibilidade e o Profissionalismo, juntando-se a Imagem de Coerência com médias totais de 2.2. A seguir, os atributos mais mencionados foram a Sabedoria, a Competência e a Sinceridade com médias iguais de 1.9. No extremo, o item menos pontuado foi a Delicadeza com o valor de 0.9. De entre os quatro, note-se que o Grupo 3 foi aquele pontuado mais favoravelmente, o que não deixa de ser conclusivo. No gráfico 3, podemos observar que, a gesticulação lenta acompanhada de uma indumentária formal gerou atitudes muito favoráveis por parte dos sujeitos, sendo esta combinatória a conjugação mais expressiva em termos de credibilidade.

Gráfico 3: Atitudes do Grupo 3

Por último, e à semelhança do grupo anterior, a indumentária no Grupo 4 obteve atitudes globalmente favoráveis, com valores máximos nos pares de adjectivos Perfeccionista versus Improvisada e Profissional versus Amadora, com médias de 2.1 e 2 respectivamente. Tanto no Grupo 3 como no Grupo 4 constatámos que, o Profissionalismo, Perfeccionismo e Elegância são as características mais evidenciadas em termos de atitudes. É de salientar ainda que, todos os itens foram pontuados acima de zero, com excepção do par de adjectivos Ousada versus Discreta, com o valor de -0.5.

As atitudes acerca da Imagem transmitida pela indumentária também são bastante favoráveis, atingindo valores mais elevados relativamente ao diferencial semântico anterior. Os atributos mais pontuados pelos sujeitos foram a Credibilidade e o Profissionalismo, ambos com médias totais de 2.3. Tal como no Grupo 3, a credibilidade foi o item mais evidenciado, ocupando a 1ª posição em ambos os grupos, o que nos permite mais uma vez apontar a indumentária formal como um factor determinante de credibilidade do comunicador. Seguiram-se a Maturidade, a Responsabilidade e a Imagem Cuidada. Por contra, o item menos pontuado foi a Coerência com o valor de 1, num intervalo entre -3 e 3. Deparamo-nos ainda com uma pontuação negativa no par de adjectivos Flexibilidade versus Rigidez (MT: -1,1), cujo valor constitui um aspecto positivo, tendo em conta que a Rigidez é uma característica apontada da indumentária formal.

Relativamente à gesticulação no Grupo 4, e tal como se constatou no Grupo 2, apresenta o seu valor extremo no par de adjectivos Moderada versus Exagerada, cujos valores são muito idênticos. De seguida, os mais apreciados foram os atributos Racional (MT: -2.3), Irrisória e Imperativa (ambas com MT: -2.1). Note-se que, no Grupo 2, o item Imperativa também foi um dos mais pontuados, com uma média um pouco superior.

O diferencial semântico relativo à Imagem transmitida pela gesticulação também indicou atitudes bastante desfavoráveis por parte dos sujeitos. À semelhança do Grupo 2, os atributos mais evidenciados foram a Agressividade com uma média total de -2.5, seguida da Hipocrisia com uma média total de -2.1. Logo a seguir apuramos o Despreparo e a Imaturidade com médias de -1.9, ocupando a 3ª posição. A credibilidade foi também pontuada negativamente (MT: -1,7), aliás muito idêntica à do Grupo 2, o que nos permite inferir que a gestualidade brusca gera uma percepção de pouca crença e fiabilidade por parte do receptor. A elevada pontuação da Hipocrisia, Imaturidade e da Incompetência (MT: -1,7) confirma este argumento. Por outro lado, devemos realçar ainda que, de entre os 12 itens apenas o par de adjectivos Autoridade versus Submissão foi pontuado positivamente com o valor neutro de 0.3. De uma forma global, o Grupo 4 registou atitudes positivas relativamente à indumentária formal, e mais uma vez, a gestualidade brusca foi pontuada desfavoravelmente como podemos verificar na próxima representação gráfica.

Gráfico 4: Atitudes no Grupo 4

Terminada a apresentação dos dados relativamente aos diversos grupos independentes, iremos agora proceder a uma análise dos dados no âmbito das variáveis independentes.

Variáveis independentes

As variáveis independentes são aquelas que o investigador manipula para medir o seu efeito na variável dependente. Neste caso concreto, as variáveis independentes são a indumentária e a gesticulação e a variável dependente é a credibilidade do comunicador. Para medirmos as atitudes da indumentária, construímos dois diferenciais semânticos: um para realizarmos uma avaliação individual do estímulo e outro para obtermos uma avaliação conjunta. O mesmo procedimento metodológico foi aplicado à gesticulação na qualidade de variável independente.

Neste sentido, e com o intuito de aprofundarmos a nossa análise dos dados, vamos abordar individualmente cada diferencial semântico numa perspectiva comparativa entre os vários grupos independentes. O objectivo é apurar as diferenças e semelhanças das atitudes relativamente às variáveis independentes em estudo.

Indumentária

Nos Grupos 1 e 2, onde os sujeitos foram submetidos a uma indumentária informal, as atitudes dos sujeitos foram desfavoráveis, registando-se na generalidade valores abaixo de zero. No entanto, embora o estímulo da indumentária tenha sido o mesmo nos dois grupos, registaram-se diferenças significativas na pontuação de determinados pares de adjectivos opostos. Os exemplos mais relevantes são: Moderna versus Tradicional (MT: 0.5 no Grupo 1 e MT: -1.2 no Grupo 2); Elegante versus Ordinária (MT: -0.3 no Grupo 1 e MT: -0.8 no Grupo 2); Original verus Convencional (com MT: -1.1 no Grupo 1 e MT: -1.8 no Grupo 2) e Ousada versus Discreta (MT: -0.1 no Grupo 1 e MT: -0.6 no Grupo 2). Ou seja, os sujeitos classificaram a indumentária como mais Tradicional, Ordinária, Convencional e Ousada no Grupo 2 do que no Grupo 1. Porém, note-se que, ao contrário do Grupo 1, o Grupo 2 foi exposto ao estímulo da gestualidade brusca, o que poderá ter influenciado  as atitudes dos sujeitos relativamente à indumentária. O aumento dos atributos Flexível, Ousada e Amadora vem também reforçar o nosso ponto de vista, uma vez que, o próprio movimento brusco também estimula estas características. Nos Grupos 3 e 4, as atitudes dos sujeitos relativamente à indumentária, foram bastante favoráveis. Tal como no nível de variação anterior – Indumentária Informal – também aqui nos deparamos com algumas diferenças consideráveis entre os grupos. Neste sentido, são de destacar os pares de adjectivos Moderna versus Tradicional (MT: 1.3 no Grupo 4  MT: 1.7 no Grupo 3); Elegante verus Ordinária (MT: 1.9 no Grupo 4 e MT: 2.5 no Grupo 3); Rígida versus Flexível (MT: 0.5 no Grupo 4 e 2.1 no Grupo 3) e Expressiva vesus Irrelevante (MT: 1.1 no Grupo 4       e MT: 1.9 no Grupo 3). Os sujeitos consideraram a indumentária mais Moderna, Elegante, Rígida e Expressiva quando ela esteve acompanhada de uma gesticulação lenta, do que acompanhada com a gesticulação brusca. De certa forma, a moderação da gestualidade acabou por impulsionar favoravelmente as atitudes dos sujeitos em relação à indumentária formal. Ainda assim, deparemo-nos com o par de adjectivos Original versus Convencional que, ao contrário da maioria dos atributos obteve valores superiores no Grupo 4. A indumentária formal foi descrita como mais original acompanhada de movimentos bruscos, do que conjugada com movimentos lentos.

Gesticulação

Nos Grupos 1 e 3, os diferenciais semânticos relativos à gesticulação apresentaram atitudes favoráveis. Não obstante, note-se que  os valores obtidos no Grupo 3 foram na generalidade superiores aos evidenciados no Grupo 1. Essa discrepância verificou-se acima de tudo nos atributos Explicativa (MT: 1.4 no Grupo 3 e MT: 0.7 no Grupo 1); Informativa (MT: 1.8 no Grupo 3 e MT: 0.3 no Grupo 1) e Discreta (MT: 2.3 no Grupo 1 e MT: 1 no Grupo 3). Ou seja, a Seriedade, o Profissionalismo e a Respeitabilidade comunicados pela indumentária formal impulsionaram, mesmo que indirectamente, os parâmetros avaliativos da gesticulação lenta. Nos Grupos 2 e 4, na genaralidade também se apurou uma diferença bastante acentuada em alguns pares de adjectivos. A gesticulação brusca apresentou atitudes mais desfavoráveis quando acompanhada de uma indumentária informal (presente no Grupo 2) do que quando conjugada com uma formal ( presente no Grupo 4). Os pares de adjectivos opostos ou bipolares que melhor o comprovam são: Explicativa versus Genérica (MT: -0.9 no Grupo 2 e MT: 0.3 no Grupo 4), Segura versus Insegura (MT: -0.3 no Grupo 2 e MT:0.5 no Grupo 4) e Informativa versus Objectiva (MT: -2.2 no Grupo 1 e MT: -0.3 no Grupo 4). Isto é, a gesticulação brusca foi pontuada como menos Genérica, Insegura e Objectiva no Grupo 4 do que no Grupo 2. Assim, verificámos que as atitudes dos sujeitos relativamente à gesticulação (lenta ou brusca) foram influenciadas pelo grau de formalidade da indumentária. Neste sentido, podemos afirmar que, quando a indumentária adoptou o nível formal, a gesticulação lenta obteve valores positivos muito expressivos (Grupo 3) e a gesticulação brusca apurou valores negativos, embora não tão significativos como no Grupo 4. Por sua vez, quando a indumentária foi de cariz informal, a  gesticulação lenta obteve valores positivos não tão expressivos, comparativamente aos do Grupo 3. Já a gesticulação brusca apresentou valores negativos mais elevados como foi apanágio do Grupo 2.

Imagem transmitida pela indumentária

Globalmente, no que respeita à Imagem transmitida pela indumentária, as atitudes dos sujeitos foram desfavoráveis nos Grupos 1 e 2, e favoráveis nos Grupos 3 e 4. Tal como nos diferenciais semânticos anteriores, também aqui se evidenciaram algumas diferenças que importam salientar. No Grupo 2, as médias totais dos atributos aumentaram comparativamente ao Grupo 1. Os aumentos mais significativos ocorreram nos pares de adjectivos Segurança versus Insegurança (com MT: -0,2 no Grupo 1 e MT: -1.5 no Grupo 2), Coerência versus Incoerência (com MT: -0.6 no Grupo 1 e MT: -1.5 no Grupo 2) e  Profissionalismo versus Diversão (com MT: -1.6 no Grupo 1 e MT: -2.3 no Grupo 2). Na opinião dos sujeitos experimentais, a Indumentária transmitiu uma Imagem de Segurança, de Incoerência e de Diversão muito superiores no Grupo 2. As Imagens de Descontração, Jovialidade, Não credibilidade e Descuido também aumentaram quando a indumentária informal foi acompanhada de uma gestualidade brusca. Os Grupos 3 e 4, ao contrário do que se tem verificado, não apresentaram valores muito divergentes. Para além de se constatar uma ligeira descida na maioria dos valores médios de atitudes no Grupo 4, estas diferenças não são muito consideráveis. Já os atributos Coerência (com MT: 1.5 no Grupo 3 e MT: 1 no Grupo 4) e Flexibilidade (com MT: 0.1 no Grupo 3 e MT: -1.1 no Grupo 4) foram os que apresentaram maior disparidade de valores. No entanto, repare-se que, a Imagem transmitida pela indumentária formal apresentou valores positivos mais elevados quando esteve acompanhada da gestualidade lenta, do que quando esteve conjugada com a gestualidade brusca. Por outro lado, a Imagem transmitida pela indumentária informal apurou valores negativos mais baixos quando acompanhada de uma gesticulação lenta, do que quando acompanhada com uma gesticulação brusca. Ou seja, também aqui é notória a influencia do nível de variação da gesticulação na análise conjunta da indumentária.

Imagem transmitida pela gesticulação

Por útimo, relativamente à Imagem transmitida pela gesticulação, podemos verificar que os valores médios de atitudes foram favoráveis nos Grupos 1 e 3, e desfavoráveis nos Grupos 2 e 4. O Grupo 1, submetido à indumentária informal e à  gesticulção lenta, apresentou valores positivos mais baixos à semelhança do Grupo 3, que foi submetido ao mesmo tipo de gesticulação, mas com uma indumentária formal. Os atributos que melhor exemplificam esta disparidade de valores são a Autoridade (com MT: -0.3 no Grupo  1 e  MT: 2.1 no Grupo 2) e a Coerência (com MT: 1.6 no Grupo 1 e MT: 2.2 no Grupo 3). Repare-se que, na opinião dos sujeitos do Grupo 3, a gesticulação lenta acompanhada de uma indumentária formal transmitiu uma Imagem de elevada autoridade, ao passo que os sujeitos do Grupo 1 consideraram ter sido uma Imagem de submissão ou neutra. À semelhança da autoridade, também a coerência apresentou valores relativamente superiores no terceiro grupo. Por contra, a Delicadeza foi o único iten que registou uma ligeira descida, comparativamente ao Grupo 1. No que respeita à Imagem transmitida pela gesticulação brusca, podemos verificar que os valores médios de atitudes foram mais desfavoráveis no Grupo 2 do que no Grupo 4. As diferenças mais expressivas verificaram-se nos pares de adjectivos Segurança versus Insegurança (com MT: -1.6 no Grupo 2 e MT: -0.9 no Grupo 1), Empatia versus Apatia (com MT: -1.9 no Grupo 2 e MT: -1.3 no Grupo 4) e Sabedoria versus Ignorância (com MT: -1.1 no Grupo 1 e MT: -0.,5 no Grupo 4). A gesticulação transmitiu uma Imagem de maior Insegurança, Apatia e Ignorância quando foi acompanhada pela indumentária informal, do que quando foi conjugada com a indumentária formal. Repare-se que, os valores da Insegurança e da Apatia apesar de negativos foram neutros no Grupo 4. O atributo Autoridade também registou uma ligeira diferença, tendo obtido um valor médio de -0.1 no Grupo 2 e 0.3 no Grupo 4. Neste sentido, podemos afirmar que a Sobriedade, Profissionalismo e Respeitabilidade, presentes na indumentária formal, influenciaram positivamente os parâmetros de avaliação conjunta da gesticulação e  a indumentária informal ajudou na descida dos valores relativos à Imagem transmitida pela gesticulação.

Efeitos colectivos

A determinação dos efeitos foi realizada através da soma das pontuações de todos os diferenciais semânticos. O somatório das pontuações dos sujeitos experimentais permite-nos apurar o valor colectivo das suas apreciações por grupo experimental, tendo em linha de conta os níveis de variação da combinatória de variáveis independentes a que foi submetido o sujeito. No âmbito desta investigação, consideramos como efeito positivo, negativo ou neutro, o somatório das pontuações colectivas que estejam compreendidas entre os valores da Tabela 1.

TABELA 1: INTERVALOS DEFINIDORES DOS EFEITOS POR GRUPO EXPERIMENTAL

Efeito positivo

Efeito neutro

Efeito negativo

Entre

[490 e 1470]

*[470 e 490]

Entre

[450 e -450]

*[451 e 489]

Entre

[-490 e -1470]

*[-470 e-489]

*Por se verificar um “buraco” na banda de variação tivemos que alargar os intervalos definidores dos efeitos

Definidos os intervalos dos efeitos por grupo experimental, realizamos a soma das pontuações colectivas para cada diferencial semântico e para cada grupo independente. Os resultados obtidos estão apresentados na tabela seguinte:

TABELA 1: EFEITOS OBTIDOS POR GRUPO EXPERIMENTAL

Diferenciais semânticos

Grupo 1

[II +GL]

Grupo2

[II + GB]

Grupo 3

[IF + GL]

Grupo 4

[IF + GB]

1- Avaliação individual:  induementária

-103

-145

153

122

2 – Avaliação individual: gesticulação

190

-191

224

-161

3- Avaliação conjunta: Imagem transmitida pela indumentária

-134

-192

243

205

4- Avaliação conjunta: Imagem transmitida pela gesticulação

180

-200

215

-172

Soma das pontuações dos diferenciais semânticos

133

-728

835

-6

Efeito obtido

Efeito Neutro Efeito Negativo

Efeito Positivo

Efeito Neutro

Da observação da Tabela 2, podemos verificar que a indumentária informal acompanhada de uma gesticulação lenta (Grupo 1) obteve um efeito neutro na credibilidade do comunicador; a indumentária informal conjugada com uma gesticulação brusca (Grupo 2) apurou um efeito negativo na credibilidade do comunicador; por sua vez, a indumentária formal acompanhada de uma gesticulação lenta (Grupo 3) obteve um efeito positivo em termos de credibilidade e, por último, a indumentária formal conjugada com uma gesticulação brusca (Grupo 4) proporcionou um efeito neutro na credibilidade do comunicador.

DISCUSSÃO

Depois de apresentados e analisados os dados, podemos afirmar que a hipótese geral deste estudo se verifica, tendo sido possível verificar três das quatro hipóteses operativas.

Através da H1, foi possível verificar que a gestualidade lenta acompanhada de uma indumentária informal obteve um efeito neutro na credibilidade do comunicador. A amostra do Grupo 1 apresentou atitudes desfavoráveis relativamente à indumentária informal, classificando-a como Amadora, Flexível e Improvisada. Segundo os sujeitos experimentais ela transmitiu uma imagem de Descontracção, Jovialidade, Irreverência e Obediência. No entanto, o efeito negativo da indumentária informal foi atenuado pela gesticulação lenta, que foi descrita como Moderada, Discreta e Compreensível. Na opinião dos sujeitos ela transmitiu uma imagem de Credibilidade, Sinceridade, Profissionalismo, Empatia e Sabedoria. Ou seja, a moderação da gestualidade e os atributos por ela comunicados influenciaram as atitudes dos sujeitos relativamente à informalidade da indumentária.

A H2 permitiu-nos constatar que a indumentária informal (do tipo jeans, sweat e sapato desportivo) conjugada com uma gesticulação brusca proporcionou um efeito negativo em termos de credibilidade. Os sujeitos experimentais do Grupo 2 pontuaram negativamente quase todos os atributos relativos à gestualidade e à indumentária. Na percepção do Grupo 2 a indumentária informal foi tida consideravelmente como Flexível, Improvisada e Amadora, e transmitiu Imagens de Descontracção, Jovialidade, Diversão, Irreverência e de Não Credibilidade. Estas verificações permitem-nos constatar que, de facto, a indumentária do indivíduo denota informação, podendo dar indicações acerca dos seus interesses, personalidade, status, etc.. Em geral, a aparência e atractivo da pessoa influenciam as relações interpessoais e actuam como fortes indicadores na construção de uma imagem de credibilidade. Neste caso, a indumentária informal em vez de colaborar com a formação de uma imagem de credibilidade acabou por depor contra a mesma. Este aspecto está bem saliente na elevada pontuação de atributos como a Diversão, Jovialidade, Descontracção, Insucesso e Irreverência. O mesmo se apurou na gestualidade, onde as atitudes dos sujeitos foram notavelmente desfavoráveis. Neste trabalho, a gesticulação brusca foi considerada como Exagerada, Imperativa, Objectiva, Informe e Emocional e transmitiu Imagens de Agressividade, Hipocrisia, Despreparo, Imaturidade, entre outras, como o caso da Não-Credibilidade. Tal como a indumentária, os gestos utilizados pelo comunicador também dão informações sobre o seu carácter e personalidade, chegando por vezes a por em causa as percepções de confiança e fiabilidade por parte do interlocutor. Isto acontece por vezes quando as nossas palavras dizem uma coisa e os nossos gestos dizem outra, denunciando-nos em mensagens implícitas que não queremos desvendar. Tal como salienta Caetano, “o que se dá a conhecer aos olhos é muito mais marcante que o que somente se dá a conhecer aos ouvidos” [6]. Note-se que, neste estudo, a gestualidade brusca transmitiu imagens de Hipocrisia e Incoerência bastante assinaláveis levando-nos a afirmar que os gestos executados com demasiada rapidez podem por em causa a percepção de sinceridade e, consequentemente, a credibilidade do comunicador na óptica do receptor. Tal como referem Dorna e Argentin, “(…) la gestualidade juega un rol importante en la credibilidade del emisor. En efecto, la utilización reiterada de gestos no relacionados com el discurso (registro adaptador) ejerce una influencia perturbadora en la recepción del mensaje” [13]. Os movimentos corporais excessivos e incoerentes com a linguagem verbal podem actuar como fortes indicadores de ansiedade, reticência, stress e até mesmo mentira, sendo percepcionados pela audiência com desconfiança. Ora, quando a confiança é posta em causa é impossível haver geração de credibilidade.

Por sua vez, a H3 permitiu-nos verificar que a gestualidade lenta acompanhada de uma indumentária formal obteve um efeito positivo na credibilidade do comunicador. A amostra do Grupo 3 foi aquela que evidenciou atitudes mais favoráveis relativamente às variáveis em estudo.

A indumentária formal (do tipo terno preto, camisa branca e gravata escura) foi descrita pelos sujeitos experimentais como sendo Elegante, Profissional, Perfeccionista e Idónea. Na percepção da amostra, a indumentária transmitiu Imagens de Profissionalismo, Maturidade, Segurança, Autoridade, Sucesso, entre outras. A Imagem de Credibilidade foi a mais pontuada, o que nos permite afirmar que o grau de formalidade da indumentária é um forte indicador na construção da credibilidade do comunicador. O carácter formal da indumentária confere ao seu portador grande visibilidade, potenciando o seu atractivo. Por outro lado, comunica respeitabilidade, competência e seriedade, características que, por si só, potenciam a percepção de fiabilidade por parte do receptor da mensagem. Segundo Bonásio, as roupas estão directamente relacionadas com a imagem que o comunicador quer passar ao público. Se o emissor quiser ser levado a sério pela sua audiência, ele tem que ter noção de que a sua roupa deve complementar os próprios objectivos da comunicação [4]. Assim sendo, é importante que o comunicador adopte uma indumentária conservadora e moderada, uma aparência séria e profissional para que possa ser considerado digno de confiança.

No Grupo 3, a gestualidade lenta foi apontada como Segura, Racional, Clara, Moderada, Enfática e Informativa. Perante a considerável pontuação destes atributos, rapidamente nos apercebemos que a gesticulação actuou como uma potencial forma de comunicação. Para além de ilustrar e reforçar o discurso verbal, também contribuiu para a transmissão de uma mensagem mais clara e unívoca. A gesticulação adoptada também chamou a atenção do público, tendo em linha de conta que foi descrita como Persuasiva e Congruente. Ou seja, o uso de gestos moderados e adequados aumentou o impacto da comunicação, ajudando as pessoas a reter maior percentagem de informação. Os gestos são como uma arma de dois gumes: por um lado, valorizam a comunicação se forem bem feitos; por outro, podem comprometer a sua eficácia, se forem mal feitos, exagerados ou excessivos [36]. Na visão de Esteves Rei, para que a gesticulação seja considerada eficaz ela tem que possuir alguns requisitos, nomeadamente: a naturalidade, sobriedade, harmonia, variedade e calma [36]. A nível da Imagem transmitida pela gestualidade, os sujeitos experimentais evidenciaram atributos como o Profissionalismo, a Responsabilidade, Autoridade e Delicadeza. Note-se ainda que, a Sinceridade, Coerência e Credibilidade foram consideravelmente assinaladas, ao contrário do que se verificou na gesticulação brusca. Aqui, os gestos demonstraram estar em harmonia com a mensagem falada, complementando-a e dando-lhe mais relevo. A existência de coerência é muito importante, uma vez que permite ao receptor compreender e validar aquilo que está a ouvir. Por sua vez, o emissor, ao obter aceitação por parte do público, está a conquistar a sua confiança.

Por último, na H4 tentámos verificar se a indumentária formal acompanhada de uma gesticulação brusca proporcionava um efeito negativo em termos de credibilidade do comunicador. No entanto, da análise dos dados podemos constatar que esta hipótese não se verificou e que obteve um efeito neutro. O facto de a indumentária formal não ter sido pontuada tão favoravelmente como foi no Grupo 3, e o facto de a gesticulação brusca não ter sido classificada tão desfavoravelmente como se evidenciou no Grupo 2, podem ter sido duas das razões para obtermos o efeito neutro. Este aspecto demonstra que as variáveis independentes estão associadas e que se influenciam de forma mútua, mesmo que indirectamente, o que é compreensível, uma vez que actuam em simultâneo. Isto significa que, o nível de variação da gestualidade influencia as percepções acerca da indumentária e, por sua vez, o grau de formalidade afecta as atitudes relativamente à gesticulação. Tendo em conta os resultados obtidos nas outras combinatórias, podemos afirmar que no Grupo 4 a indumentária formal amenizou os efeitos negativos da gestualidade brusca e esta afectou a percepção dos sujeitos relativamente à indumentária.

CONCLUSÕES

O corpo tem uma linguagem própria, uma linguagem que, por sua vez, é silenciosa, mas tão, ou mais, expressiva do que as palavras. Através das expressões do rosto, olhares, gestos, posturas, vestuário, etc. o ser humano transmite inúmeras informações acerca de si mesmo e da sua hipotética situação económica, cultural, preferências, ideologias, atitudes e estilos de vida.

As manifestações não-verbais são também determinantes no processo de construção da credibilidade do comunicador. É através do seu comportamento e da sua conduta que o receptor vai verificar se ele é, ou não,  digno de crença e confiança. Como foi possível perceber através deste estudo, a indumentária e a gesticulação demonstraram ser dois poderosos canais de comunicação não-verbal que influenciam e determinam a percepção da crebilidade por parte do receptor da mensagem. Demonstrou-se que, a gestualidade lenta acompanhada de uma indumentária formal tem um efeito positivo na credibilidade do comunicador, enquanto que, a gesticulação brusca conjugada com uma indumentária informal gerou um efeito negativo em termos de credibilidade.

A indumentária comunica através das cores, formas, texturas das roupas, entre outros componentes que possam ser significativos [4]. O tipo de tecido, o corte, a cor podem dizer muito acerca de um indivíduo e do mundo em que vivem. Por outro lado, cerca de 95% da primeira impressão que causamos é proporcionada pelas roupas, uma vez que elas cobrem 95% do nosso corpo.  Assim sendo, a indumentária é considerada crucial para a formação da primeira impressão do indivíduo e respectiva imagem. No presente estudo podemos verificar que o grau de formalidade é decisivo na percepção de fiabilidade e confiança por parte dos sujeitos experimentais. As amostras dos Grupos 1 e 2, ambas submetidas a uma indumentária informal, evidenciaram atitudes negativas em termos de credibilidade. Já as amostras dos Grupos 3 e 4, ambas submetidas a uma indumentária formal, demonstraram apreciações favoráveis. Estes resultados revelaram-se naturais, tendo em conta que a indumentária informal transmitiu Imagens de Jovialidade, Diversão, Descontração, Irreverênica e Insucesso, enquanto que a indumentária formal comunicou Imagens de Seriedade, Profissionalismo, Maturidade, Sucesso e Reverência. Neste sentido, podemos afirmar que, o caractér formal da indumentária projectou ao comunicador um subtexto de inteligência, competência, respeitabilidade e confiança. Ou seja, a indumentária formal contribuiu para a construção de uma imagem de credibilidade, ao contrário da indumentária informal, que acabou por depor contra a mesma. Estar bem vestido é, asssim, fundamental para inspirar confiança, prestígio e respeitabilidade.

À semelhança da indumentária, a gestualidade também demonstrou ser muito importante no processo de construção da credibilidade do comunicador. Os resultados obtidos demonstraram que a gesticulação lenta gerou percepções de Delicadeza, Profissionalismo, Segurança, Coerência, Empatia e Sabedoria.  A realização de gestos moderados e coerentes enriqueceu a mensagem do sujeito falante e contribuiu para a percepção de uma imagem de competência e confiabilidade. Não obstante, confirmou-se que a gesticulação brusca gera uma percepção negativa em termos de credibilidade. Na opinião dos sujeitos experimentais ela transmitiu Imagens de Agressividade, Imaturidade, Insegurança, Hipocrisia, Incoerência e Distanciamento. Ou seja, gerou a percepção de não credibilidade e falta de confiança e sinceridade. O uso de gestos nervosos, atrapalhados e excessivos denuncia falta de concentração e rigor pessoais. Assim sendo, não é apenas na fala que o emissor deve  dominar os seus impulsos e reflexos, mas também na gesticulação do sujeito [36].

Ainda, no presente estudo confirmou-se que a gestualidade lenta acompanhada de uma indumentária informal gera um efeito neutro na credibilidade do comunicador. Não obstante, não conseguimos validar a última hipótese de investigação. Verificamos que, a gesticulação brusca conjugada com a indumentária formal em vez de gerar um efeito positivo em termos de credibilidade gerou um efeito neutro.

 

BIBLIOGRAFIA

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[9] Camargos, Larissa, “O potencial comunicativo da  moda: análise semiótica dos editoriais da moda da Revista Marie Claire”, 2008, p.19, Internet. Disponível em: http://www.com.ufv.br/pdfs/tccs/2008/2008_larissalacerda_editoriaisdemoda.pdf (Consultado em 11 de Maio de 2011.

[10] Cazau, Pablo, “Introducción a la investigación en ciencias sociales”, 2006, p.101, Buenos Aires, Alianza Editorial.

[11] Correa, Rosemeri, “A complementaridade entre língua e gestos nas narrativas de sujeitos surdos”, 2007, p.30, Internet. Disponível em: http://www.ronice.cce.prof.ufsc.br/index_arquivos/Documentos/Rosemericorrea.pdf (Consultado em 9 de Maio de 2011).

[12] Davis, Flora, “A comunicação não-verbal”, São Paulo, Summus Editorial, 1979, p.22.

[13] Dorna, Alejandro e Argentin, Gabriel, “Impacto persuasivo del gesto en el discurso político: una experiencia de consejo (asesoria) y de laboratório”, in Revista Latinoamericana de Psicologia, 1993, 25 (1), p.67,. Internet. Disponível em: http://redalyc.uaemex.mx/pdf/805/80525105.pdf (Consultado em 17 de Novembro  de 2011)

[14] Fávero. et al,  “O jogo interacional e a gestualidade nas entrevistas de televisão”, Internet Disponível em: http://www.fflch.usp.br/dlcv/lport/pdf/maluv011.pdf (Consultado em 29 de Março de 2011).

[15] Fortin, Marie – Fabienne, “O processo de investigação – da concepção à realização”, Loures, Lusociência, 1999, p.133.

[16] Hellmann, Géssica, “Corporalidade e Arte: A moda como linguagem”, 2011, Internet. Disponível em: http://corporalidade.gehspace.com/2011/03/26/corporalidade-arte-parte-1-moda-linguagem/ (Consultado em 28 de Abril de 2011).

[17] Keith, Jonathan, “Introduction: From costume history to dress studies”, p.4”, Internet. Disponível em: http://www.yorku.ca/uhistory/faculty/cv/Edmondson/Roman%20Dress%20Intro%20Edmondson%20&%20Keith.pdf (Consultado em 13 de Abril de 2011).

[18] Kendon, Adam , “Language and Gesture: unity or duality?”,pp.51 e 56, Internet. Disponível em: http://cs.uwindsor.ca/~xyuan/references/LanguageGesture00.pdf (Consultado em 27 de Maio de 2011).

[19] Lemos, Ilsa, “A comunicação não-verbal: um estudo de caso”, 2006, p.4, Internet. Disponível em:http://www.unirevista.unisinos.br/_pdf/UNIrev_Lemos.PDF (Consultado em 5 de Março de 2011).

[20] López, Josep,“La credibilidade de testimonio infantil ante supuestos de abuso sexual: indicadores psicosociales”, p.43, Internet. Disponível em: http://www.buentrato.cl/pdf/est_inv/maltra/mi_juarez.pdf (Consultado em 18 de Maio de 2011).

[21] Losada, Alejandro, “La credibilidade del presentador de programas informativos en televisión. Definición y cualidades constitutivas”, 2007, p.3,  Internet. Disponível em: http://www.unav.es/fcom/comunicacionysociedad/es/articulo.php?art_id=53 (Consultado em 16 de Maio de 2011).

[22] Lurie, Alison, “El lenguage de la moda: una interpretación de las formas de vestir”, Barcelona, Paidós Contextos, 1994, p.22.

[23] Maciel, Batania, “Outros sistemas de comunicação não-verbal”, 2002, p.1, Internet. Disponível em: http://galaxy.intercom.org.br:8180/dspace/bitstream/1904/19132/1/2002_NP17MACIEL.pdf (Consultado em 23 de Fevereiro de 2011).

[24] Marques, Osorio, “A escola no computador: linguagens rearticuladas, educação outra”. Brasil, Unijui, 2006, p.55.

[25] Maté, Maria et al, “Tema 4: Las actitudes”, p.14, Internet. Disponível em: http://ocw.unican.es/ciencias-de-la-salud/ciencias-psicosociales-i/pdf-reunidos/tema_04.pdf (Consultado em 7 de Setembro de 2011).

[26] McNeil, “Hand and Mind”, The University of Chicago, Chicago, 1992.

[27] Meirinhos, Galvão, “El periódico electrónico como soporte publicitario. Análisis experimental de la eficacia de los web banners publicitarios”, pp. 5-11, Internet. Disponível em: http://dlac.utad.pt/AIJIC/Galvao-Meirinhos.pdf (Consultado em 11 de Outubro de 2011).

[28] Morera, Jaime “Comunicación interpersonal: el efecto Palo Alto”, 2004, p.8, Internet. Disponível em:http://www.mapfre.com/documentacion/publico/i18n/catalogo_imagenes/grupo.cmd?path=1031200 (Consultado em 2 de Maio de 2011).

[29] Mota, Dolores, “Moda e identidade: aspectos psicossociais da roupa na contemporaneidade”, 2006, p.3, Disponível em: http://www.adital.org.br/site/noticia2.asp?lang=PT&cod=23905 (Consultado em 4 de Abril de 2011).

[30] Nacif, Maria “O vestuário como princípio de leitura do mundo”, 2007, p.46, Internet. Disponível em:http://snh2007.anpuh.org/resources/content/anais/Maria%20Cristina%20V%20Nacif.pdf (Consultado em 20 de Maio de 2011).

[31] Neil, Salkind, “Métodos de investigación”, México, Prentice Hall, 1999, p.27.

[32] Navarro, Joe, “Verdade ou Mentira: o guia de um investigador criminal para dominar a linguagem corporal”, Portugal: Academia do Livro, 2008, p.59.

[33] Orellana, Litza “Incorporación de la comunicación no verbal en los cursos de L/LE: Una propuesta  didáctica”, 2006, p.86, Internet. Disponível em: http://www.educacion.gob.es/redele/Biblioteca2008/Litza%20Solis/MemoriaLitza.pdf (Consultado em 6 de Junho de 2011).

[34] Pereira, Ana, “Os gestos das mãos e a referenciação: investigação de processos cognitivos na produção oral”, 2010, p.45, Internet. Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/poslin/defesas/1286D.pdf (Consultado em 6 de Junho de 2011).

[35] Prud’Home, Stéphane,“ Étude sur les facteurs de crédibilité des porte-parole: une compréhension de la crédibilité par la théorie générale des systèmes”, 2004, pp. 53-65, Internet. Disponível em: http://www.gestiondecrise.ca/wp-content/themes/wpremix2/dossiers/memoire-credibilite_porte-parole.pdf (Consultado em 9 de Julho de 2011)

[36] Rei, Esteves, “Curso de comunicação oral”, 2005, p.17, Internet. Disponível em: http://side.utad.pt/cursos/storage/EZOO/3166/1321834473_11.curso_comunicacao_oral_jer.pdf (Consultado em 11 de Dezembro de 2011).

[37] Ribeiro, Bruno, “Bloggers: fonte de influência on-line”, 2006, p.9, Internet. Disponível em: http://pt.scribd.com/doc/17113534/Bloggers-Fontes-de-Influencia-Online (Consultado em 10 de Setembro de 2011).

[38] Rosas, Omar, “La ética de la confianza  en el periodismo digital”. In La ética de la comunicación a comienzos del siglo XXI, 2011, p.1084, Internet. Disponível em: http://perso.fundp.ac.be/~ovrosasm/La_etica_de_la_confianza_en_el_periodismo_digital_final_-_Copie.pdf (Consultado em 26 de Fevereiro de 2011).

[39] Santos, Mário, “Curso de Retórica e Oratória” São Paulo, Editora Logos, 1962, p.83.

[40] Serra, Paulo e Ferreira, Ivone, “Retórica e mediatização”, Livros LabCom, 2008, pp. 155 e 156.

[41] Serra, Paulo, “A relação entre ethos e logos no processo de persuasão”, p.11, Internet. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/serra-paulo-relacao-ethos-logos.pdf (Consultado em 13 de Maio de 2011).

[42] Teófilo, Ana, “Com que linhasse cose o género – a importância do vestuário infantil na construção do género”, 2010,p.8, Internet. Disponível em: http://run.unl.pt/bitstream/10362/4808/1/Com%20que%20l…pdf (Consultado em 2 de Junho de 2011).


[1] Mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal, fatimamouraribeiro@gmail.com .

[2] Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade Autónoma de Barcelona. Professor Auxiliar na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Apartado 1013, 5001- 801 Vila Real, Portugal, gsm@utad.pt .

[3] Um desenho factorial 2×2 supõe duas variáveis independentes, cada uma com dois valores, portanto, tem quatro combinações possíveis [10].

[4] Grupo experimental ou independente é um conjunto de sujeitos submetidos a um dado e único tratamento (combinação de condições experimentais) [27].

[5] Esta prática refere-se à selecção aleatória nos grupos experimentais e de controle, de forma a que cada sujeito do estudo possua a mesma probabilidade de fazer parte de um ou de outro grupo [15].

[6] Variável estranha é aquela que tem um impacto imprescindível sobre a variável dependente [31].

[7] Aprendizagem acidental é a aprendizagem “ en la que el sujeto desconocía, durante la adquisición, que iba a ser sometido a una prueba de memoria posterior (…) ” [27].

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